"E nem mesmo o tempo conseguiu fazer esquecer você!"
LEMBRANÇAS
Por Thiago de Góes
“E nem mesmo o tempo conseguiu fazer esquecer você” (Kátia)
Na cobertura, despejou dois cubos de gelo de côco no copo de uísque. Ela observou o reflexo de seu próprio rosto tremulando no álcool, como um monstro submarino tentando escapar em vão do maremoto. Depois viu a lua cheia refletida na piscina clorada. Então pensou em jogar-se n’água, mesmo sem despir-se de suas roupas de frio, para fazer com a lua o que os cubos de gelo fizeram-lhe sem dó.
Sim, ela queria fugir de suas lembranças!
“Seus olhos castanhos. Sua iminente calvície. Sua embriagues ingênua. Como pude dar-me ao luxo de deixar-lhe escapar de mim, assim de repente e sem explicações? Como pude não lutar pelo teu amor que me secava?”.
Carregou consigo os cubos de gelo afogados e já ligeiramente derretidos na recente calmaria que se seguiu após a micro-tempestade no sublime copo de uísque escocês. Apertou o botão do elevador. Uma luz amarela incandescente foi pouco a pouco preenchendo os números no alto da porta, em intervalos regulares.
Ela esboçou um leve sorriso ao dar-se conta de que era madrugada e por isso dificilmente compartilharia com alguém aquele espaço de paredes prateadas. Era melhor assim. Ela poderia até mesmo adormecer no chão frio do elevador e não seria percebida.
Não! Mas havia as micro-câmeras para denunciá-la. E se uma coisa poderia importuná-la mais que tudo neste mundo era certamente algo que pudesse provar sua existência, que pudesse mostrá-la na cara, como se dissesse impiedosamente “Veja, você existe! E embora exista, não deixará nunca de ser esta coisa tão insignificante!”.
A porta abriu, ela entrou e apertou “Térreo”. Parou, olhou para os diminutos cubos e tomou um gole da bebida. Arrependeu-se e apertou “Estacionamento”. Procurou as chaves no bolso esquerdo.
“Éramos tão felizes, você e eu! Faz muito tempo e, no entanto, não me esqueço. E não sei, meu Deus, não sei quando comecei a lhe perder. Quando foi, pelo amor de Deus, que eu deixei de ser importante pra você? Ah se eu pudesse voltar no tempo e corrigir todos os meus erros. Como gostaria de ter sido uma pessoa melhor para você! Mas agora não dá mais...”.
A porta abriu-se vagarosamente. Ela saiu e logo acionou o botão da chave para destravar o carro, fazendo soar um brevíssimo alarme sonoro e visual. Ela não sabe para onde ir, mas agora é diferente. Agora é justamente isso que ela quer: não saber para onde ir e ainda assim não deixar de fazê-lo, apesar disso ou por causa disso. Ela quer apenas estar em movimento, inconscientemente em movimento, hipnotizada pelo movimento, dopada pelo movimento.
Direção hidráulica, vidro fumê e faróis altos navegando pelo asfalto sujo da cidade. Sim, ela quer fugir de si mesma. Quer achar algum lugar no qual ela não se reconheça. Algum lugar em que não caibam suas lembranças, em que só hajam desconhecidos e mesmo estes nunca sejam os mesmos. Algum lugar transitório que abrigue o seu peremptório desejo de não ser. Algum lugar passageiro, maravilhosamente neutro, estranhamente indolor. Ela quer perder-se para sempre numa multidão amorfa.
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Escrito por Thiago de Góes às 08h05
Escrito por Thiago de Góes às 08h45

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