Conto da carta de Waldick Soriano
A CARTA
Por Thiago de Góes
"Amigo, por favor, leve esta carta e entregue àquela ingrata e diga como estou". (Waldick Soriano)


Apoiando-se nas paredes, a velha pisava os dois pés, degrau por degrau. Subiu três andares, aliviou num suspiro e perguntou ao homem no fim do corredor:

"É você?".

Ele virou-se lentamente, mirou-lhe com atenção e tentou imaginá-la aos vinte e poucos anos e algumas mentiras mais. Doces. Daquelas que fisgam. Impunemente.

"Chegou cedo, né?".

Pouco mais de meia hora. Cada minuto alimentava uma ânsia que lhe subia pelo pescoço obeso, como refluxo. De seus temores.

"O que você tem para mim?".

Alguma coisa leve, simples, aparentemente inofensiva. Alguma coisa que se perdera no tempo, esquecida numa gaveta qualquer. Alguma coisa que ainda não disse a que veio. Mas dirá!

"Calma! Vamos aguardar as outras".

Elas foram chegando aos poucos, cada qual mais surpresa por não ter sido a única. Duas delas chegaram quase juntas. Quando se viram, uma apressou o passo, enquanto a outra os deixou mais lentos. Ambas, contudo, fingiram não se reconhecer. De todas, a última que deu as caras contou doze mulheres ao seu redor. Estava já quinze minutos atrasada.

"Afinal, por que você nos chamou aqui?".

Ele demorou alguns instantes para falar. Antes, analisou cada uma, tentando adivinhar inutilmente para qual delas deveria entregar a encomenda. Teve raiva de si mesmo, por não tê-la entregue a tempo.

"Preciso saber qual de vocês é mais ingrata".

Escaparam sussurros de revolta contida, tornando cúmplices algumas rivais de outrora. Entreolharam-se como quem diz "quanto atrevimento!". Como quem diz "quem este homem pensa que é?". Como quem já disse, contudo, muita coisa na vida.

"Desculpe-me. Preciso entregar uma coisa. Mas não sei para quem".

Ele já devia saber, no entanto, que aquilo causaria uma chuva de solicitações, cada qual mais cheia de razões que a outra.

"Vamos parar com isto! Talvez esta carta seja mesmo para todas vocês".

Aquela missiva bem que poderia falar sozinha, como lhe havia dito o amigo falecido. O remetente. Se assim fosse, evitaria a vergonha daquela voz trêmula, daquelas mãos trêmulas, daquela culpa firme!

Evitaria ler em voz alta, para uma platéia seleta, aquelas juras de amor sinceras. E ridículas, como devem ser. E sentidas, como não se pode evitar. Frase por frase. Palavra por palavra. Entre lágrimas quentes, retardatárias e silenciosas.

Evitaria aquela revoada de emoções e lembranças tardias, salpicando os corações de velhas raposas. As destinatárias. Principalmente daquela cujo vestido pareceu mudar, numa fração de segundos, do encarnado ao luto, e em cujo nariz pareceu apontar um dedo invisível, como quem lhe diz:

"Você é a mais ingrata!".
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Jornalista,escritor, bancário, potiguar, 29 anos

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